Uma sociedade organizada e democrática é baseada nos princípios da liberdade e da garantia dos diretos coletivos. A liberdade acontece não na sua interpretação ampla de seu significado, não é a liberdade de que se pode fazer ou falar qualquer coisa, a liberdade democrática é a liberdade dentro das normas estabelecidas pela sociedade em que se vive. Alguns podem até dizer que é ser livre dentro das leis, mas nem sempre são as leis que colocam um limite nas nossas ações, a cultura de um lugar, muitas das vezes, nos impede de fazer algo que seria permitido pelas leis ordinárias. E o direito coletivo é superior ao direto individual porque escolhemos viver em sociedade. Apenas aquele que decide viver as margens da sociedade organizada é que tem seu direito individual como prioridade e, quase sempre, essa condição de isolamento é baseada apenas na lei do mais forte. Mas o homem enquanto ser social que foi assim definido de Sócrates, 300 anos antes de Cristo, até Augusto Comte já no século XVIII, precisa manter as leis ordinárias e culturais em vigência para que a sociedade se sustente.
Já entrando nos conceitos modernos de democracia gosto muito desta definição:
“A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo.” – Abraham Lincoln (1809 – 1865).
Para o ex presidente estadunidense a democracia é um conceito muito distante da que vivemos hoje, um de poderíamos reconstruir essa frase da seguinte maneira "A democracia é o governo de uma elite, pela elite, contra o povo." Uma constatação fácil de se fazer ao analisar a origem familiar da grande maioria dos ocupantes de cargos do alto escalão a nível federal, estadual e municipal. Algumas destas elites, sim são várias elites no Brasil, nem sempre são donas de grandes somas em dinheiro, mas sempre são donas de grande poder. Empresários, fazendeiros, donos de redes de comunicação, policiais, militares e representantes de organizações profissionais são grande parte da elite do poder brasileiro.
Chegando as terras macaenses e ao tempo em que vivemos com pandemia, crise financeira, polarização política, desemprego e fome, encontramos um quadro confuso e totalmente indefinido. Macaé que está no meio de um decreto que fechou os serviços não essenciais vive um clima de tensão e debate sobre os grandes temas que dominam as manchetes de jornais e as discussões populares.
Para exemplificar esse texto, hoje teremos um manifestação de comerciantes pela reabertura das aulas, e como escrevo antes do protesto não vou poder contar como se desenrolou, mas posso analisar em que contexto isso acontece. Primeiro vamos ao contexto democrático. A manifestação é justa e necessária. Justa pois todos os grupos sociais tem o direto de buscar o que é melhor para cada um deles, no caso dos comerciantes é natural que eles queiram a volta de suas atividades, pois é em função dela que eles existem. Seria ilógico uma acomodação deste setor que sofre, como todos nós, os efeitos desta crise. Cobrar, pedir, reivindicar e protestar é legitimo e cabe ao governante equilibrar as medidas para que essa parte da sociedade tenha as respostas e o suporte que todo governo tem a obrigação de dar.
A crise financeira atinge muito além das lojas comerciais. Funcionários, fornecedores e consumidores também mergulham na crise com o fechamento de grande parte deste setor. Quero deixar claro que existe uma grande diferença entre empresário e comerciante. O empresário possuiu uma estrutura robusta de comércio, tem um capital grande e redes de comercio extensas, além de acesso a créditos, muito maiores e, em muitos casos, é capaz de montar empresas programadas para não dar lucro durante alguns anos. Já o comerciante, na quase maioria dos casos, compra seus produtos dos empresários, tem pequenos espaços comerciais no centro ou na periferia, contra alguns funcionários e vive equilibrando-se entre pagar as contas, os impostos e seus funcionários. Nessa crise financeira quem sofre é a ponta deste sistema, que são os comerciantes e seus funcionários. Aqui em Macaé isso não é diferente, e quem vai a porta de prefeitura protestar no dia de hoje é essa ponta do sistema comercial.
A polarização politica em Macaé é um tanto semelhante a nacional. Dividida em quem quer a abertura total (seguindo os protocolos) e quem quer o fechamento planejado até a chegada da vacina, vamos reproduzindo os discursos bolsonaristas e anti bolsonaristas. Onde cada palavra ganha uma dimensão fora do contexto e do bom senso, onde noticias e denuncias falsas atrapalham ainda mais um governo municipal que dá seus primeiros passos em meio a um terremoto de grandes proporções.
As consequências macaenses são desemprego, fome, luta e revolta. Não necessariamente nesta ordem. Por isso o título deste artigo. O macaense tem o direto de reivindicar. Seja pela abertura ou pelo fechamento, seja pela distribuição de cestas básicas ou de auxilio em dinheiro. Por empregos ou por assistências, por socorro e por saúde. E pela sua própria vida. Reivindicar é o direto democrático de todos e equilibrar essas reivindicações é o dever de quem escolheu livremente se candidatar a ser nosso representante.
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