Processo Seletivo ou Concurso Público?

     

Uma questão que sempre volta à tona quando se anuncia um processo seletivo é: - Porque não realizar um concurso público? E essa resposta pode percorrer muitos caminhos ou então cair naquele lugar comum de que "está todo mundo querendo roubar" que é de explicação simplista, mas muitas das vezes, longe da realidade.

    Voltando só um pouco no tempo, a prática de concursos públicos é uma forma, até certo ponto recente, de ingresso no serviço público. Depois de frágeis avanços em 1937 e 1969, somente a constituição de 1988 garantiu que o ingresso no serviço público fosse apenas por meio de provas ou provas e títulos. Mas também sabemos que as classes políticas e judiciárias sempre acham uma forma peculiar de interpretar a lei na forma e na medida que melhor lhes convém.

    Os contratos com as administrações públicas, as cooperativas de trabalhadores, as terceirizações de mão de obra e os "processos seletivos" para contratação temporária, assunto deste artigo, surgiram para atender as vontades e necessidades da administração pública. A princípio de forma emergencial, isto é, para manter um serviço funcionando até que o governo, seja de que esfera for, posso realizar o concurso público.

    Mas o tempo foi transformando os processos seletivos em políticas de governo, contratações de mão de obra temporária se transformaram em sucessivas renovações automáticas e o processo seletivo se tornou mais interessante para a administração pública do que o concurso. Posso até concordar, que em essência as duas formas possuem um caráter democrático, mas a prática se apresentou, na verdade, como um instrumento de agrado a eleitores mais humildes que não encontram espaço no mercado de trabalho formal.

    Voltando ao tema da democracia, o concurso público é a sua forma mais perfeita de possibilitar que todos tenham acesso ao serviço público. Do municipal ao federal, passando pelos três poderes e pelas empresas e autarquias públicas o acesso a todos os níveis de escolaridade seria a forma ampla e democrática de quem optar pela carreira pública. Afinal existe a necessidade de ocupar vagas do ensino fundamental a mais alta graduação superior por todos esses setores que acabei de descrever.

    O servidor público concursado é a garantia de que os políticos passarão, mas o serviço continuará. Sem criar a ilusão de que servidor de carreira não entra, não faz e não se interessa por política, a verdade é que se não houvesse servidores públicos no momento em que grupos políticos alternam-se no poder, certamente teríamos grandes problemas administrativos na transição. Como um exercício de imaginação posso propor a troca de um prefeito, em uma prefeitura sem servidores públicos, onde o novo eleito é um adversário feroz do que perdeu a eleição. O que o derrotado não faria? e o que o vencedor não teria de dificuldade? Por esse e outros muitos exemplos é que o servidor concursado é uma garantia para que a sociedade não sofra as consequências das disputas políticas.

    Mas quem garante que o servidor concursado não fará política dentro da administração pública? Ninguém garante, mas existem as regras, inclusive punitivas, par o servidor que ultrapassar os limites legais, Códigos de ética profissionais, estatutos dos servidores e supervisão do Ministério Público funcionam como órgãos de fiscalização para que os interesses particulares dos servidores não afetem seu compromisso profissional.

    Mas não é justo tratar o contratado pelo processo seletivo, como todo o mau do serviço público. Pois de fato, não é. A população que busca o processo seletivo o faz por dois motivos. Ou pela precariedade do mercado de trabalho ou pela ausência do concurso público. Quem faz o processo seletivo não procura um favor político, procura emprego. Na grande maioria não tem bandeira partidária ou ideologia política como motivador para participar do processo. Quem faz o processo seletivo encontra as mais precárias condições de trabalho e isso não é motivo para que isso seja transformado em prática de governo. Os salários sempre quase que invariavelmente mais baixos, os direitos são poucos, o vínculo tem prazo para acabar e os piores locais de trabalho são quase sempre os locais que esses contratados exercerão suas atividades. 

    O político ou administrador público mal preparado ou mal-intencionado seguem caminhos muito parecidos quando optam pelo processo seletivo. O processo seletivo, na sua essência, é para suprir uma carência momentânea do serviço público, então uma sequência desta prática, prova, no mínimo, a incompetência administrativa de um gestor. E se a opção é baratear a mão de obra, prova inequivocamente a vontade de explorar essa mão de obra, por não garantir diretos e salários iguais aos dos servidores concursados. E, o pior, quando o gestor público, faz o processo seletivo apenas para agradar sua base eleitoral, ele comete além do desvio de caráter, um desvio político com consequências devastadoras. Dentre elas a prática de cada vez mais criar mais cargos temporários com salários menores, para poder aumentar o número de "eleitores contratados" visando a próxima eleição. Os adversários políticos, também com os mesmos desvios de caráter, prometem ainda mais cargos, mais contratos, mais precarização travestida de ação social.

 

    Enfim fica claro, para mim, que o processo seletivo poder ser um instrumento importante, mas só deve ser utilizado se poucos meses depois der origem a um concurso público para transformar o que é precário para todos em serviço estável, regulamentado e de qualidade.

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